segunda-feira, 25 de julho de 2011

Os militares no poder (1964-1985)

Tanques do exército nas ruas após o golpe de 31 de março de 1964. 
"Em 1964, a nação recebeu um tiro no peito. Um tiro que matou a alma nacional. Os personagens que pareciam fazer parte da história natural brasileira, ou da História do Brasil como nós imaginávamos, esses personagens sumiram. Ou fora do poder, ou presos e mortos. E em seu lugar surgiram outros, que eu nunca sequer percebera existir. Aí me veio a percepção clara de que o Brasil tinha mudado de regime." (Betinho apud BARROS, Edgard Luiz de. Os governos militares. São Paulo: Contexto, 1991. p. 13.)

"Não era mole aqueles dias
De percorrer de capuz
A distância da cela
À câmara de tortura
E nela ser capaz de dar urros
Tão feios como nunca ouvi.
Havia dias que as piruetas do pau-de-arara
Pareciam ridículas e humilhantes;
E, nus, ainda éramos capazes de corar
Ante as piadas sádicas dos carrascos.
Havia dias em que todas as perspectivas
Eram pra lá de negras
E todas as expectativas
Se resumiam à esperança algo cética
De não tomar pancadas nem choques elétricos.
Havia outros momentos
Em que as horas se consumiam
À espera do ferrolho da porta que conduzia
Às mãos dos especialistas
Em nossa agonia
Houve ainda períodos
Em que a única preocupação possível
Era ter papel higiênico
Comer alguma coisa com algum talher
Saber o nome do carcereiro do dia
Ficar na expectativa da primeira visita
O que valia como um aval da vida
Um carimbo de sobrevivente
E um status de prisioneiro político.
Depois a situação foi melhorando
E foi possível até sofrer
Ter angústia, ler
Amar, ter ciúmes
E todas essas outras bobagens amenas
Que aí fora reputamos
Como experiências cruciais."
(Alex Polari,  "Os Primeiros Tempos")
 
Castelo Branco e militares: arrogância e prepotência

Hoje você é quem manda

Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão

Apesar de você
amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de "desinventar"
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria

Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia

Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal
("Apesar de você", de Chico Buarque)

Militares impedem manifestação pró-Jango (Rio de Janeiro) 
[...] o Golpe de 1964 pode ser acusado de muitas coisas, menos de ter sido uma mera quartelada. Há muito tal intervenção era discutida em instituições, como a Escola Superior de Guerra (ESG), criada em 1948, ou o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), fundado em 1962, por lideranças empresariais. Outro indício de que o golpe já vinha sendo tramado há tempos ficou registrado nos documentos da operação "Brother Sam", através da qual se previa, caso houvesse resistência, que o governo norte-americano "doaria" 110 toneladas de armas e munições ao exército brasileiro. Por ser fruto desse planejamento prévio, não é surpreendente que a instituição militar apresentasse um projeto próprio de desenvolvimento para o país - projeto, aliás, compartilhado pela maioria do empresariado nacional. Em larga medida, consistia em retomar o modelo implantado em fins dos anos de 1950, aquele que definimos como tripé, baseado na associação entre empresas nacionais privadas, multinacionais e estatais.
No sentido de tornar esse modelo mais "eficaz", foi meticulosamente organizada a repressão ao movimento sindical e à oposição política. Contudo, a implantação da ditadura não ocorreu imediatamente após a deposição do presidente. Os conspiradores dependiam dos grupos legalistas, muitos deles defensores do retorno dos civis ao poder nas próximas eleições presidenciais. Além disso, a ausência de resistência - em 3 de abril de 1964, João Goulart rumava calmamente para o exílio no Uruguai - desarmou momentaneamente a "linha dura". Mas isso durou pouco. Em 1965, graças às "depurações" nas forças armadas, os militares identificados com o General Costa e Silva já tinham força suficiente para alterar o rumo da "revolução". A derrota que enfrentaram nas urnas alimentou ainda mais essa tendência. No referido ano, candidatos oposicionistas venciam em estados e cidades importantes, como Guanabara, Minas Gerais e a capital paulista. Boa parcela dos brasileiros demonstrava assim seu descontentamento frente ao governo instituído em 31 de março. Como resposta, foram impostos os Atos Institucionais nº 2 e nº 3, que aboliam os partidos existentes e as eleições diretas para presidente, governador e prefeitos de capitais. Agora não restavam dúvidas, os militares tinham vindo para ficar...
O governo nascido do Golpe de 1964 foi definido certa vez como o "Estado Novo da UDN". Essa definição tem sua razão de ser. Durante duas décadas, políticos udenistas - representantes de parcelas importantes das elites empresariais e agrárias - dificilmente chegaram a conseguir apoio de mais de 30% do eleitorado brasileiro. Entretanto, através da ditadura militar, puderam ver implementadas várias de suas propostas em termos de política econômica, como, por exemplo, a diminuição do valor real dos salários, a abertura ampla da economia aos investimentos estrangeiros, e a recessão nos primeiros meses após o golpe.

A aliança entre udenistas e militares teve ainda outras repercussões. Apesar de oportunistas e golpistas, os partidários da UDN eram admiradores de democracias liberais. Tal posicionamento obstaculizou a adoção de um modelo fascista no Brasil. Mesmo nos momentos de maior intolerância, a ditadura militar, através da rotatividade dos presidentes, evitou o caudilhismo, não deixando de reconhecer a legalidade da oposição parlamentar. A extinção dos partidos tradicionais, em 1965, foi acompanhada da criação de duas novas agremiações: Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Esse último representava boa parte dos grupos que lutavam pelo retorno à normalidade democrática.
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração..
("Roda viva", de Chico Buarque)


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“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada. É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
Carlos Drumond de Andrade