segunda-feira, 14 de novembro de 2011

República Federativa do Brasil

Por Cláudio Lembo
Via terra.com

Cento e vinte e dois anos. É tempo. E muito. Estes anos se passaram desde a proclamação da República. Um ato estranho como outros de nossa história. Nada de heroísmo, muito de perfídia.
Deodoro era pessoa de confiança do Imperador. Seu conselheiro. Deixou a fidelidade à parte. Derrubou a monarquia. Um ato singelo. Ele e seus companheiros de farda apenas gritaram: viva a República.
Bastou. A abolição do trabalho escravo enfraqueceu politicamente a monarquia. A guerra contra o Paraguai esvaziou os cofres públicos. Gerou dívidas insuportáveis.
O pior. O conflito contra Solano Lopes permitiu o surgimento de heróis, verdadeiros e falsos. Heróis vivos sempre criam situações difíceis. Não foi diferente nestas terras tropicais.
As tropas passaram a tomar perfil. Configurou-se a corporação militar. Esta passou a fazer exigências. Soldos maiores. Presença política atuante. Os membros do antigo regime não possuíam o mesmo estofo.
Caiu o Império. Venceram os adeptos do Positivismo, integrantes do Exército. A ala civil do Partido Republicano, no primeiro momento, foi suplantada. A corporação militar abocanhou todos os postos centrais.
Seguiram-se anos de grande rigor. Tanto Deodoro quanto Floriano Peixoto, que o sucedeu, agiram com mão-de-ferro. Não vacilaram. Aniquilaram os antagonistas.
A violência dirigiu-se contra membros de famílias tradicionais, como se deu em Santa Catarina. Também contra sertanejos imbuídos de princípios religiosos, no caso de Canudos.
Os militares, leitores de Auguste Conte, imaginavam aplicar o Positivismo, com seu racionalismo, nestas terras ensolaradas. Como todo transplante cultural feito às pressas, o choque foi inevitável.
Nada mudou. Tudo estagnou. Como apontou o romancista, o povo não participou. A tudo assistiu bestificado. Foi o primeiro golpe militar da História brasileira.
O Visconde de Ouro Preto, o último ministro da Fazenda do Império, em visão profética, escreveu no exílio um pequeno volume a que deu o nome de "Advento da Ditadura Militar no Brasil".
Realmente, após a implantação da República, a ingerência dos militares na política tornou-se constante. Os golpes armados se sucederam.
Os civis, sempre individualistas e muitas vezes sequiosos de benesses, aceitaram passivamente a dominação dos hierarquizados e disciplinados corpos fardados.
Em várias ocasiões os chefes militares tiveram prevalência nas decisões fundamentais para o País. Certamente, o momento mais representativo da atuação militar aconteceu em 1930.
Os tenentes, de então, reformularam os costumes políticos e institucionalizaram a defesa do patrimônio nacional. Conceberam, ao lado de civis, novas instituições.
A Justiça Eleitoral é um produto direto do tenentismo e, sua instalação, permitiu rever as práticas deformadas do sistema eleitoral durante todo o período do Império e da Primeira República.
Os fundamentos da Petrobrás e de outras entidades centrais do desenvolvimento surgiram a partir dos ideários lançados pelos tenentes de 30.
Depois vieram muitos momentos dignos de reflexão e análise. Permaneceu, no entanto, sempre o ideal da unidade nacional. A federação, entre anomalias e acertos, tornou-se uma realidade imutável.
Quando tanto se fala em busca da verdade, é bom recordar que a República nasceu da Questão Militar e, mesmo em seus momentos de normalidade democrática, a presença do dístico "Ordem e Progresso" aponta para uma filosofia com raízes nas casernas.

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“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada. É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
Carlos Drumond de Andrade