quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Sinvaldo, o campesino

Às vezes, noite alta, Sinvaldo volta a minha memória com aquele sorriso e voz rouca, inquebrantável, incentivando-me a entrar nas casas simples, nas choças, nas vidas vividas no mato, andar a cavalo ou a pé, talvez com Raimundo Lagoa, talvez com Zé da Onça, talvez com Peixinho ou ter um dedo de prosa com Vanú.
Buscava, Sinvaldo, os vestígios da luta popular no sul do Pará.
Olhando as estrelas no Araguaia reportava-se das suas andanças com Nunes, com Nelito, com Zé Carlos, com Duda, com Piauí, com Fátima, com Sônia. Seus olhos de peão do mato, de homem duro da roça aguavam-se com a lembrança de seu mais antigo e casto amor: Cristina.
- Moço de deus, Cristina era a ‘flor da mata’! Era a boniteza em pessoa. Quando eu saí, com a mulher e o primeiro filho, pelo Taurizinho, eu a convidei para sair também, dizendo-lhe: ‘vamos embora, Cristina, que a cobra vai fumá!’.
- E ela me disse: ‘moço, meu lugar é aqui, meu lugar é com meus companheiros, lutando para livrar o país dessa ditadura fascista! Vai, companheiro, tira a tua mulher e teu filho daqui. No futuro, não te esqueças de contar a nossa história’.
Também amei Cristina no amor de Sinvaldo.
No fundo das redes camponesas toquei o coração da guerrilheira com mãos de centelha e na substância metálica da lua fui mata em ventania, protesto em liberdade, igarapés de águas minerais.
Altivo como as noites araguaicas meus pés firmaram-se no chão da luta popular.
Nossa convivência fora intensa e de ensinamentos mútuos.
Afinal, não é assim que deve ser a relação entre os homens?
No sol amazônico cavalgávamos pelo Caçador, buscando os relatos que nos indicassem o destino dos combatentes, cruzando as várias informações, declamando poemas guerrilheiros, ascultando os sentimentos do povo, comendo o que nos ofereciam e verdade seja dita: havia sempre uma galinha caipira para saciar as nossas fomes andarilhas e uma cama ou rede para aplacar o cansaço de longas jornadas.
Na madrugada profunda do tempo da guerra, dizia-me Sinvaldo, podia-se ouvir o barulho das metralhas e a mata incendiando-se.
Foi na Brasil-Espanha que Fátima fora alvejada nas pernas depois que sua ‘lurdinha’ travou na hora do chafurdo com uma tropa. E Sinvaldo gesticulava, procurando imitar a angústia da combatente no momento do fogo. Ferida, foi levada para as Oito Barracas no lombo de um burro e nos Croá é morta e enterrada a mando do Major Curió.
Depois de nossas andanças por aqueles sertões, orientados por um ex-mateiro do Exército, o ‘nego’ Olimpio, ficamos sabendo que dois dias depois, numa manhã perdida de Setembro de 1996, o Major Curió aportou na casa de nosso informante oferecendo-lhe dinheiro ou terras para que seu antigo comandado não passasse informações para os comunas.
Daqui, de minhas lembranças, acarinho a profunda amizade estabelecida com aquele lavrador que não largava o chapéu se recusava a raspar o bigode.
Acometido por um câncer no estomago, deixou-nos há alguns anos e mesmo na fase terminal da enfermidade procurava manter o compromisso estabelecido com Cristina, a ‘flor da mata’, à beira do Taurizinho: de dar vida às vidas generosas daqueles que no Araguaia tombaram.
Mantendo viva a memória araguaiana, aquele destemido e corajoso campesino buscava compreender os feitos de sua classe.
A inexorável e heróica luta dos camponeses em nosso país.

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“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada. É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
Carlos Drumond de Andrade