sábado, 10 de março de 2012

Ditadura Militar: uma aula

Não foi muito difícil, não. Sou um bom pai. Minhas filhas foram bem criadas. Conhecem o pai que têm. Eu nunca escondi as coisas. Nunca disse a elas que fui um santinho. Disse a elas que não pensassem que eu não bati em alguém. Bati, sim. Elas ficaram um pouco chocadas e disseram: ‘Pai, já sabemos, mas agora pára’. Não queriam detalhes. Eu segui a minha vida. Não adianta esconder esse tipo de coisa. A verdade uma hora vem à tona.”
Marcelo Paixão, militar aposentado da Aeronáutica, foi torturador na Ditadura Militar em entrevista para a Revista Veja falando como contou para as filhas sobre sua antiga prática
O motivo deste meu post com este título e este depoimento foi um momento que aconteceu em um colégio que dou aula – não, não é o Intellectus.

por Raphael Kappa*
Dando aula de Ditadura Militar, falei dos grupos que atuavam contra os ditos subversivos. Ao falar do grupo da Aeronáutica, citei um dos torturadores e para minha surpresa, começou um grande cochicho em sala. Narrei como eram as torturas, a palmatória, os choques, o pau de arara, sempre com aquela discrição para realmente chocar os alunos, e percebi que do cochicho se fez um certo silêncio.
Achei ótimo, realmente o que esperava era o silêncio, mas o grupo que cochichava fazia uma cara que me prendeu a atenção, continuei a aula e ao terminar, um dos alunos veio conversar comigo e disse que o tal torturador, que está sempre ligado a morte de Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel, era seu tio-avô.
O que mais poderia falar? Já tinha dito tudo.
Tinha tido que este militar fez uma revolta no Governo JK…
Exilou-se….
Que a UDN – quem mais? – pediu ao Congresso a anistia dos revoltosos, foi negada….
Não é todo dia que se tem Anistia Ampla, Geral e Irrestrita…..
Somente voltou em 1961…..
Ajudou o movimento que implementou o Regime Militar no Brasil…..
Para alguns Revolução de 64, para mim, Golpe Civil Militar de 64…
Que dentre os nomes de torturadores mais conhecidos está junto com um Dr, e um outro Cabo como os principais…
Um da Marinha, outro do Exercito…
Que suas práticas eram perversas….
Que comandava toda a tortura do Aeroporto Galeão…
Que queria EXPLODIR um gasômetro do lado da Rodoviárias, gerando muitas mortes, para colocar a culpa nos adversários comunistas…
Aquele que fez uma lista de mais de cem pessoas que mataria com esse evento em prol do Brasil que ele queria….
O que eu poderia responder ao aluno depois dele afirmar seu parentesco?
Fiquei mudo.
Por sorte, ele completou: – “Por isso, não assino o nome inteiro e abrevio com um ‘B.’ – como se fosse Raphael B. Kappa – Uma das minhas tias foi humilhada no colégio e desde então minha família tenta esconder este sobrenome”
Aquilo não saia da minha cabeça, passou a Comissão da Verdade do Lula, o livro Brasil: Nunca Mais, o filme Zuzu Angel, Batismo de Sangue, o fato que o Brasil é o único país do América Latina que este assunto ainda é um grande tabu…
Mas coincidências existem, meses depois, conversando com um outro professor, ele me conta um caso semelhante de um outro parente do mesmo brigadeiro-do-ar que contou a mesma história, obviamente, com outra referência ao parentesco da dita tia.
Esse episódio me fez pensar muito na maneira como ensinar História, contar um passado recente que pode ser considerado tempo presente, mas resolvi continuar fazendo meus comentários. Infelizmente, compartilho a angustia que deve ser ter um parente com um passado que não é seu, mas cujo sobrenome denuncia e causa olhares estranhos.
Os nomes de todos os torturadores mencionados aqui são facilmente achados na Internet, não existe problemas em citá-los com fontes que os apontam, só achei que como um post e até mesmo para quem quiser pesquisar, deixar em aberto. Mas estarei disponível para ajudar.

Raphael Kappa*Raphael Kappa tem 21 anos, é formado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e estudante de Comunicação Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professor, pesquisador e no Intellectus trabalha como monitor na unidade de Vila Isabel.


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“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada. É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
Carlos Drumond de Andrade