terça-feira, 19 de abril de 2011

Mércia, Advogada De Todas As Horas

Por: *Urariano Mota 19/04/2011, 18:09


MÉRCIA, ADVOGADA DE TODAS AS HORAS

Nos últimos dias, a sua presença voltou com uma força que eu não imaginava. Tornou-se impossível fugir da sua pessoa em cada linha ou leitura que eu fazia.  Por isso lembro.


Rua Sete de Setembro, 197, Edifício Ouro. Na década de 70, era para lá que rumávamos. Entrávamos no edifício sem olhar para trás, rápido, como se ladrões fôssemos, como se fôssemos criminosos, como se já estivéssemos no Chile de Pinochet e ali penetrássemos para nos salvarem uma embaixada. Ali, no apartamento 52 do Edifício Ouro, uma mulher de estatura média, de olhos abrasantes, nos atendia.

“Advogada Mércia Albuquerque, presente”. Não eram essas as palavras, não era bem assim que ela nos vinha, mas era exatamente esse o ar, que a sua presença nos sugeria. “Descansem. Eu estou presente. Sim, eu conheço esses milicos. Essa canalha do DOPS eu já sei como age. Descansem, vocês estão em casa”. Não lembramos bem se essas eram as palavras, se algum dia ela assim se expressou, mas sentimos que do seu corpo frágil, agitado, andando pela sala do apartamento, sem se sentar, vinha a insinuação delas. “Tranquilizem-se, se fizermos a denúncia, a vida dele está salva”. Elétrica, agitada, e, no entanto, nos dava uma grande calma.

Agora que ela não mais habita no Edifício Ouro, agora que seu corpo se acha definitivamente ausente, agora que superamos a ditadura, nesta altura em que ficou fácil ser democrata, ah, o factual, o seu currículo de advogada de perseguidos políticos, de presos torturados, tudo isso tende a se fundir em versões e esquecimento. Não sabemos se é sempre assim quando a gente se ausenta, mas de Mércia fica uma impressão íntima, uma forma de orquídea violeta que não sabemos de onde nem por que nos vem. Agora mesmo, enquanto digitamos estas mal traçadas, a voz de Bienvenido Granda nos chega insistente aos ouvidos, embora em torno só haja o tique-taque do relógio no silêncio da madrugada. “Egoísmo” é o bolero que nos chega, não sabemos por quê.

E, no entanto, sabemos a razão, ou pelo menos desconfiamos do porquê. A doutora Mércia Albuquerque era um ser passional. É isto o que a violeta roxa e Bienvenido nos querem dizer. Ela resolveu defender Gregório Bezerra porque o viu arrastado por uma corda ao pescoço em 1964, em Casa Forte. Ao se tornar advogada de Abelardo da Hora, acolheu os filhos desse artista em seu apartamento 52 do Edifício Ouro. Ao ser sequestrada por agentes do DOPS, foi atirada de volta na Rua da Guia, que, à época, era a última e mais miserável rua do bairro de putas do Recife antigo. Ali, ela recordaria depois, recebeu dinheiro e solidariedade de uma prostituta que atendia pelo nome de Biscuit. Defensora de radicais materialistas, de jovens socialistas ou de jovens simplesmente desesperados, sem saída, era, ela própria, católica, até meio mística, e nisso não via nada que fosse obstáculo à defesa daqueles “terroristas”, como os difamava a propaganda da ditadura militar.

Pois foi a esta mulher, tantas vezes presente nas aflições dos perseguidos políticos, que tanto perigo correu por defender “terroristas”, que presa 12 vezes sem culpa, sem inquérito, sem acusação formal, como de resto se continua a fazer com os pobres e miseráveis do Brasil, que conviveu com a destruição física e humana de militantes, e também com o heroísmo imenso desses torturados, pois foi a esta mulher que parecia ter flertado com a eternidade, porque tantas vezes esteve perto do fim e dele se safou e o pulou como acrobata, pois foi a esta mulher que a morte colheu numa mesa de operações! Em 29 de janeiro de 2003 a doutora Mércia foi ali e não voltou, vítima de um câncer que lhe devastou o ovário. Ainda que esse câncer sintomático lhe tenha minado a vida, traiçoeira e silenciosamente, não foi bem essa infâmia que a matou. A causa mortis apontou parada cardíaca.

Para uma advogada passional, para uma mulher que lembrava a rara orquídea roxa, faz sentido uma morte assim, de parada no coração. A vida da gente é estúpida, é certo, mas ao fim sempre guarda algum sentido. Um sentido que não sabemos se conseguimos realizar, doutora, neste espaço curto, nessa lembrança curta de quem a viu uma vez, mas jamais esqueceu de que seus olhos queimavam na gente feito urtiga.

*Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.




http://boitempoeditorial.wordpress.com/2011/04/19/mercia-advogada-de-todas-as-horas-coluna-do-urariano-mota/

Respostas à Drª Mércia:

Myriam Queiroz 
Ler a respeito do que vc escreveu sobre a dra. Mércia, advogada de todas as horas, não sei explicar ainda bem o porquê, me remeteu a alguns complexos conceitos filosóficos desenvolvidos pelo gênio de Niestzche, vamos a eles:
O Eterno retorno e o Super Homem
- A visão da história da humanidade, segundo o autor, assenta na concepção de um eterno retorno. Quando forem realizadas todas as possbilidades de combinação dos elementos, tudo voltará a se repetir num novo ciclo. A cultura ocidental, segundo ele, depois de uma fase de apogeu, desde Sócrates, entrara numa longa fase de decadência que a conduziu ao niilismo, marcado pela ausência de valores, terminando no indiferentismo. Neste percurso, os valores superiores foram sendo substituídos pelos valores dos escravos, difundidos pelo Cristianismo e consagrados nos regimes democráticos e a ascensão das classes trabalhadoras. Estes falsos valores negam a vida em nome de ilusões (ideais) ou de uma vida futura. A única possibilidade de sair desta fase de decadência é o homem transformar-se a si próprio, mediante a transmutação de todos os seus valores, encaminhando-se para aquilo que Niestzche designou por Super-homem. Apenas uma pequena elite atingirá este estádio. Sua Dra. Mércia atingiu este estádio, no momento em que a vejo transmutada nesse super-homem nietzschiano que não é um ser, cuja vontade “deseje dominar”. É ter vontade de potência, que segundo Nietzsche, significa “criar”, “dar” e “avaliar”. A “presença” abrasante da violeta roxa, embalada pela latinidade de Bienvenido Granda e do caráter firme de seus ideais libertários e políticos, descrito por sua pena, Urariano, me fez fazer esta correlação. O texto é delicioso. Intimista, apaixonado, envolvente… !!
PS. Vc está ainda está devendo a leitura e crítica de um artigo meu – “Narciso acha feio o que não é espelho”

Gilberto de Azevedo 
“Advogada Mércia Albuquerque, presente!”

Heládio Campos Leme 
Urariano
Mércia Albuquerque, grande e valorosa mulher-advogada.
É preciso contar em livros, filmes, documentários, a saga desses advogados abnegados, com os quais temos uma dívida eterna. Muitos presos foram salvos da morte na tortura pela sua ação corajosa.
Eles merecem sempre nossa gratidação e homenagem.
Voce o fez, Urariano, num belo e emocionante artigo.
Heládio

Selenia G. 
Urariano, num belo e emocionante artigo. Heládio já escreveu o que pensei quando cheguei na metade da leitura. Sempre trazendo a tona para nós, preciosidades, narrativas delicadas, com a força da escrita e sentimento que são peculiares ao escriba. Gratíssima, Urariano Mota.

Suzana Ivete figueredo 
gostaria de cumunicar com a Dra Mércia, como fazer?Obrigada.
Suzana Figueredo





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“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada. É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
Carlos Drumond de Andrade