sexta-feira, 17 de junho de 2011

Toda máquina repressiva é também um organismo burocrático

Foto: facebook
 Quando se fala em abertura dos arquivos da ditadura há um consenso. Trata-se de resgatar um patrimônio nacional que é a nossa história. Estou lendo Terra Assombrada, um livro que aborda a história recente dos países do leste europeu (Alemanha (RDA), Tcheco-eslováquia e Polônia, principalmente). Na atual república Tcheca, a polícia do regime mantinha registros de todos os seus agentes, informantes e colaboradores. A queda foi tão repentina que não houve tempo de apagar estes registros, grande parte deles em papel. Nem houve tempo para adulterá-los. Havia como cruzar as informações. Na ficha de um ativista, havia anotações de seu interrogador, que por sua vez tinha uma ficha e havia ainda o registro de seu superior. Assim que o governo de Havel assumiu, foi feita uma lei e criada comissões para enquadrar todos os colaboradores da polícia. Cada policial tinha uma cota para recrutar de novos colaboradores. Os futuros recrutas eram classificados como aspirantes. Toda máquina repressiva é também um organismo burocrático. Muitas vezes os policiais colocavam opositores como aspirantes simplesmente para preencher suas cotas. Há um registro, mas é muito difícil contextualizá-lo. Há também a questão dos interrogatórios. Os dissidentes tinham a orientação de responsabilizar pessoas mortas ou exiladas para preservar outros opositores. Transportando esta experiência aqui para o Brasil. 25 anos depois, com todo o tempo à sua disposição, sem nenhuma pressão, os arquivos da repressão podem estar adulterados. Sabe-se que os militares escreveram o famoso Orvil, para dar a sua versão e chantagear combatentes do regime. Pensem no caso da presidente. Durante a campanha surgiram fichas suas e foram desencavados documentos de sua organização propondo o justiçamento de agentes da repressão. Os seus arquivos ficaram indisponíveis durante a campanha para a imprensa. Tenho absoluta certeza que se os documentos forem abertos para acesso irrestrito, os antigos agentes da repressão irão plantar toda a sorte de provocações e de contrainformações. Os documentos do Estado, estão em outra categoria. Para estes, eu defendo o livre acesso. Para os documentos da repressão, defendo sua entrega e a criação de uma comissão de peritos, historiadores e representantes dos anistiados para analisá-los. Seria muita inocência de nossa parte confiar na veracidade destes documentos. 25 anos são tempo suficiente para se forjar uma série de papéis comprometendo militantes. Revolucionários poderão ser falsamente acusados de informantes infiltrados (que existiram na realidade). Este tipo de provocação, uma vez colocado na grande imprensa causará um dano imenso. Como não vislumbro no momento possibilidade de se ter acesso a esses documentos, coloco a questão para reflexão. O mais provável é que parte destes documentos seja destruída pouco a pouco, parte já foi levada para arquivos particulares dos ex-agentes, outro tanto está mofando em algum porão e uma parte está sendo adulterada por especialistas. Os ditadores já morreram e os cabeças já estão seguindo o mesmo rumo. Daqui a pouco, a punição aos torturadores vai perder o seu objeto por que os culpados já estarão mortos. Neste momento, restam um ou outro peixe graúdo e uns poucos subalternos, que eram jovens nas década de 70. O tempo é o maior aliado desta turma. Eles já ganharam oito anos de tranquilidade com o governo Lula e agora mais 4.
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Arthur Goncalves Filho Excelente ponderação, Marco !Assino em baixo.
Alderijo Bonache Concordo plenamente contigo, os mais envolvidos já foram para o andar de baixo, resta alguns "caducos" e tbm os que apenas cumpriam ordens! Sou frontalmente contrário ao linchamento que vejo por parte de alguns que tratam as FFAA como fossem todos do mesmo nível, msm porque os seus componentes são filhos desta pátria, não vieram de marte!
Paulo Oisiovici E gente torcendo prá que os ditadores morram para nao pagarem por seus crimes, não é... A cada dia sua face se mostra de forma mais clara...
Neusah Cerveira Marco Lisboa, muito boa a sua reflexão, gostei especialmente da frase: "O tempo é o maior aliado desta turma. Eles já ganharam oito anos de tranquilidade com o governo Lula e agora mais 4." mas, continuo achando que é fundamental abrir esses arquivos! mesmo com todas as pnderações que vc colocou no seu texto (absolutamente pertinentes). Desistir agora, não ajudaria em nada o País! como continuar essa luta não prejudica em nada o País! então nem que seja pelo simbolismo que isso representa...continuar essa luta é preciso! abçs
Neusah Cerveira Paulo, morrendo ou não, é pouco provável que eles paguem por seus crimes! mas continuaremos lutando para que isso aconteça! Abcs
Fabio Morais Mas é preciso limpar, assumir, dar nome aos que ainda vivem, se maquiadas as informações que se investiguem, que se corrijam, caso já falecidos, já foram tarde, mas quero saber os nomes, quem sao, quero entender por que a direita do Brasil é tão concisa, quebrar o latifúndio, quebrar o sigilo dessa falsa "verdade", que os netos, bisnetos desses torturadores sintam nojo ou defendam os, mas que seja travada a batalha da verdade, da justiça contra o cinismo. 
Marco Lisboa Fábito, concordo totalmente com você em relação à punição aos torturadores. Mas, basicamente, ela não está ligada à abertura dos arquivos da repressão. Nenhum torturador registrou: eu hoje torturei fulano de tal ou qual maneira e ele não resistiu. As denúncias de tortura e as listas de torturadores são públicas, principalmente graças ao trabalho da igeja e de vários pesquisadores. O que se espera destes arquivos, se algum dia eles aparecerem, são pistas para descobrir corpos, datas de prisão, depoimentos que não foram para os inquéritos oficiais, a visão dos milicos sobre as organizações que combatiam, os informes sobre os opositores que eles vigiavam, fichas de procurados, etc. Tem um interesse mais histórico do que criminal. Para condená-los bastaria o depoimento das vítimas. Uma parte deste material virou acervo particular. Eu mesmo já tive ficha minha jogada na Assembléia de Minas. A sensação de impunidade é tão grande que o tenente que me torturou, tempos atrás deu uma entrevista à Veja confessando que torturava e dando detalhes. Morreu a um ou dois anos. Só para deixar claro: eu não tive culpa e nem torci para que isto acontecesse, para salvá-lo de um possível julgamento. É uma lei da natureza que as pessoas envelheçam e morram. Se fosse lei federal, até caberia um movimento para revogá-la. A ironia não vai para você, evidentemente. 
José Bazilio Moreira Júnior Parabéns Marcos por sua exposição. Creio que o problema maior é a sementinha do mal que está germinando. Tais ideologias são passadas para as gerações futuras. Creio que a justiça irá tardar, mas tem que se deixar o exemplo.
Marco Lisboa A tortura foi banalizada. Se um jovem se desse ao trabalho de ler o que se fazia nos porões, não sairia por aí falando besteira sobre o regime militar. O problema é que com o fracasso do socialismo real e a crescente onda de individualismo e despolitização, eles tem uma visão extremamente superficial da ditadura e caem no conto do vigário de que os militares eram nacionalistas e combatiam a corrupção e a desordem. Essa alienação não se combate com discursos e adjetivos. É preciso apresentar dados e fatos para esta moçada. E ter muita tolerância e paciência.  
José Bazilio Moreira Júnior Vejo isso no próprio meio acadêmico Marco, colegas de história com essa mentalidade.
José Bazilio Moreira Júnior Acredito que para a juventudo isso tanto faz, alguns pais nem param pra conversar sobre acontecimentos como esse com seu filho. Acredito que o meio aonde esse jovem vive é o que mais influencia em sua construção sobre os fatos.
Marco Lisboa Eu tenho amigos com 30 anos, fazendo mestrado e com uma posição de direita. E não é nem uma direita bem informada, são extremamente crus em política, economia e sociologia. É um fenômeno mundial e isto não é saudosismo.
José Bazilio Moreira Júnior E como disse em um post logo a cima, essa ideologia de "nacionalismo" é passada, tenho amigos que os pais são militares ou que o mesmo estuda nessas academias militares, a concepção é totalmente outra, e o próprio preconceito com quem tem outra visão. E isso cai no clichê de te julgar de tal coisa ou de outra por ter essa visão. É complicado você mostrar para eles que independente de qualquer coisa, crimes de lesa-humanidade são inadmissíveis.
José Bazilio Moreira Júnior Sem dúvida Marco e acho o seguinte, essa geração dita direita, são totalmente manipulados pela mídia, é uma vergonha. Como já disse antes, dizem que a esquerda é falida, mas e a dinheira de hoje? não tem nem embasamento para defender seus argumentos e te reprimem por não tê-los.
José Bazilio Moreira Júnior Mas enfim, quem disse que seria fácil, a luta é para quem dá sua cara a tapa, creio eu.
José Bazilio Moreira Júnior Errata: "direita de hoje"
Alderijo Bonache direita raivosa que destila aquela substância viscosa, morreu e se esqueceu de deitar, quer manter-se de pé com uso da violência!   
    

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“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada. É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
Carlos Drumond de Andrade