terça-feira, 12 de julho de 2011

'QUEM NAO SE COMUNICA SE ESTRUMBICA'


Conhecendo a comunicação e as formas para avançarmos no desafio.
‘Tá rolando’ um debate bate-papo e resgate de memórias importante na comunidade DOCUMENTOS DA DITADURA no facebook.
Memórias vivas começam a resgatar as formas usadas para comunicação entre resistentes na Ditadura. Vencer as barreiras de comunicação ainda é um grande  desafio

Acompanhem o debate

Fernanda Tardin: Como era feita a comunicação entre guerrilheiros e resistentes com grupos distinto, pares e apoiadores?
Bora resgatar esta parte da história?
Sabemos de músicas e jornais, mas, queremos saber de outras historias e dos detalhes dos resistentes.
- PRESENTE?
Bem, tem tempo (uns dois anos) que recebi este e-mail de um (até então) companheiro virtual. Dizia a mensagem: "Nanda, um dia desses fiz essa pergunta, mas você não respondeu. Gostaria de saber, por que trabalhei em Vitória nos anos 70 (A GAZETA). Mais exatamente de 1972 a 1976. Se você é capixaba (e já vi que é jovem) diga-me, quantos anos você tinha nessa época. Depois eu digo por quê.
M. Pacheco – QUEM SE OMITE, PERMITE! (http://www.quemseomitepermite.blogger.com.br/)"

Fernanda Tardin: Além de ter falhas de memória (ou ter pouca idade na época), não reconheci, durante todo o tempo de amizade virtual o M. Pacheco, e dada a resposta a ele, recebi outra e fomos trocando e-mail, telefonemas, informações aqui e ali, poucas , pois ele lançará um Livro Biográfico e tenho que aguardar para saber detalhes, mas coloco aqui a parte da história de M. Pacheco referente a uma forma de comunicação usada na época , tendo CERTEZA que neste grupo alguns participantes vão recordar esta etapa e com sorte acrescentar outras informações e outras histórias.
Bora?
Fernanda Tardin: "Meu papo também é longo. Tão longo que estou colocando em um livro. Título do livro: VOTE NULO, E VOTE CONSCIENTEMENTE! (Vote nulo! E todo o mundo se curvará diante da certeza de que o brasileiro é um povo politizado). Este é o parágrafo final do MANIFESTO DO VOTO NULO que redigi em 1966 e me levou à prisão em 1971.
Explico: A campanha do voto nulo em 1966 só aconteceu no RJ (Guanabara) mas só beneficiou ao governo. E a “oposição” perdeu muitos votos porque, quem anulou o voto era eleitor dos mais radicais e autênticos.
Meu jornal recebeu a visita dos agentes da repressão e fui “aconselhado” a deixar de escrever sobre política, ou seria preso e meus direitos cassados.

Em 1970, o próprio partido do governo levou meu manifesto para o Brasil inteiro. O voto nulo “arrebentou” e eles conseguiram o que queriam. A maioria no Congresso.

No finalzinho de 70, aconteceu o seqüestro de um embaixador, e o DOPS/RJ prendeu todos os já conhecidos envolvidos em movimentos de oposição. Eu, um deles. Fiquei preso de janeiro de 1971 a abril de 1972, aguardando julgamento. Por fim, fui libertado. Mas não conseguia trabalho. Em agosto fui para Vitória.

Convidado a editar o suplemento GAZETINHA, aceitei, por falta de opção. Mas não me arrependo.  Consegui criar uma geração de cidadãos conscientes. Você faz parte dessa geração...."
Jovens da faixa etária entre 11 e 14 anos, me ajudavam a fazer o suplemento, reunindo-se em grupos de cinco, em seus bairros e cidades e me enviando material que eu transformava em colunas, identificando os autores.
Se o jornal dos adultos não tinha voz, minhas crianças diziam o que bem entendiam, inclusive denunciando irregularidades em seus municípios.

Havia um slogan que os incentivava: JOVEM, ESTE MUNDO É TEU. NÃO DEIXE QUE OS ADULTOS DESTRUAM A TUA HERANÇA!

Tenho boas lembranças do ES. Deixei bons amigos.

Minha vida foi facilitada pela coincidência do sobrenome Pacheco, que era o mesmo do diretor presidente e do diretor responsável da Gazeta – General Darcy Pacheco de Queiroz. Acho que a PF nunca se preocupou comigo, devido ao sobrenome. Mas, você não imagina o que tenho para dizer sobre o período em que estive na tua terra vivendo na CLANDESTINIDADE, até que o Cariê (dono da gazeta) descobriu meu passado e fui obrigado a sair do jornal e de Vitória, reiniciando tudo em Curitiba. Acho que você deve conhecer alguém que participou da Gazetinha daqueles tempos.
Um forte abraço"

Fernanda Tardin: Bem, foi só com algumas reticências e pistas (depois confirmadas por ele), mas bastou para que eu fosse 'seguir a trilha' e buscar dados. Pois eu tinha na época 4,5 anos e em 1976 tinha 9. Lembro de fazer alguns programas na tv. Com Milson Henriques (teatrinho, estas coisas) junto a tantas outras crianças, mas não lembrava de forma alguma o descoberto.  Era eu, uma das crianças que 'ajudava ' a fazer o jornalzinho. Desenhos e cartinhas era a base da comunicação entre resistentes e guerrilheiros , presos ou em campo. Enfim, A LUTA CONTINUA, Vencer BARREIRAS DE COMUNICAÇÃO ainda hoje é fundamental, e por isto venho conclamar por memórias referentes a esta etapa da luta. Aos ‘compas’ em geral um abraço aos que viveram este capítulo e tem recordação, um apelo. PS: Sigo hoje numa luta, travada com a rede gazeta de comunicações em especial. A rede manipula e respondeu a um e-mail assim: " Boa Sorte com a mídia nacional e internacional, aqui publicamos o que nos serve.
-A LUTA TEM QUE CONTINUAR! ‘Bora’ às recordações históricas. Temos heróis para que? Bjao

José Gomes da Silva: Fernanda, havia muitas formas de comunicação, dependendo das circunstâncias. Um prova é que, quando estavam presos, criaram uma forma de comunicação, com espelhos e toques de canecos de estanho nas grades. Depois que saíram, os criminosos passaram a adotar a tática de comunicação...só que dessa vez pra o crime. Há quem diga, até (não tenho nenhuma informação fundamentada), que até o nome "Comando Vermelho" foi originado de um comando que a esquerda criou na prisão, pra proteger e unificar a defesa de todos os presos políticos, no presídio, independente de sua facção (PRC, MEP, POLOP, PDBR, PCR, ALN, ANL, etc.). Abços.
Marco Lisboa: Para divulgar a guerrilha do Araguaia, o PC do B editava um jornal, salvo engano, Brasil Notícias. Ele usava dados recolhidos nos jornais legais (Estadão e JB, por exemplo) e noticías vinculadas através da Rádio Tirana. A partir de 74 já não havia qualquer comunicação entre o partido e a guerrilha. Os últimos guerrilheiros foram caçados um a um. Valquíra, a última guerrilheira morreu em outubro deste ano. Foi ela quem me recrutou para o PC do B. Este noticiário era mimeografado e enviado pelo correio para as redações de jornais e alguns endereços de pessoas que lutavam contra o regime. Uma parte era entregue em mãos. Mas em 76 o partido estava praticamente destruído no Brasil e a maior parte de sua direção no exterior. Os militantes de AP, que haviam ingressado em 73 estavam organizados em estruturas separadas. No Rio, por exemplo, havia duas estruturas. Depois disso as organizações legais de massa, como diretorios e sindicatos começaram a se rearticular. Em 75 surgiu o jornal Movimento e em 76 a censura praticamente saiu das redações dos jornais.
Fernanda Tardin: Marco, como era a comunicação e a articulação e estrategias entre grupos de guerrilhas?
Fernanda Tardin: Como se ficava sabendo (alguns) que a milicada estava na cola e alguns ainda conseguiam escapar da cana?
Carlos Molina: Eram marcados pontos de encontro com horários rigidamente pré estabelecidos e caso falhassem é que alguma coisa de errado tinha acontecido (prisões, etc.). Pelas normas de segurança para quem era preso a orientação era que aguentasse a tortura fornecendo dados falsos por pelo menos 3 dias, para que desse tempo para a organização pudesse fazer as mudanças de aparelhos, reorganização das redes de contatos, etc..
Fernanda Tardin: Molina e demais companheiros, Como era a participação de mensageiros ocasionais ou disfarçados de mendigos, lavador de carro, vendedor de bala(picolé...) e prostitutas, que segundo varios resistentes faziam a comunicação semanal com presos políticos.?
Fernanda Tardin: Os grupos distintos de resistencia e luta armada tinham comunicação direta um com o outro?
Dagmar Vulpi: Convido os companheiros a fazerem um relato detalhado sobre o assunto para postarmos no blog do grupo, estou certo que este assunto resultará em uma bela postagem! Quem se habilita? Carlos Molina, Marco Lisboa, José Gomes da Silva, outro amigo do grupo, ou quem sabe uma matéria mais abrangente com a participação de vários amigos. Fico no aguardo. Abraço.
Fernanda Tardin: Ou quem sabe uma matéria mais abrangente com a participação de vários amigos. Apoiado
Marco Lisboa:  Quando o PC do B começou a guerrilha do Araguaia, havia a ilusão de que os revolucionários e a juventude iriam aderir em grande número ao partido e à guerrilha. A própria repressão tinha esta ilusão. Entretanto isto nunca aconteceu. As organizações praticamente não tinham contato entre elas. Isto era mais ou menos natural porque quando houve a ruptura com o PCB e sua política reformista aconteceu um movimento centrífugo. Cada organização tratava de recrutar mostrando que sua linha era mais revolucionária do que a outra, então o mais importante era mostrar as diferenças e não as semelhanças. Havia muitos rachas e fusões, mas o que predominava era a dispersão. Com o PC do B, por exemplo, houve a incorporação de uma parte do PCBR e a cisão da Ala Vermelha e do PCR. A única grande incorporação que houve foi a de AP, certamente influenciada pela guerrilha. Entretanto as estruturas que vieram de AP ficaram separadas, por razão de segurança e a unificação foi feita por cima, nas direções. Quando alguém era preso, o contato só era possível depois que a prisão era oficializada. Então ele era colocado em celas com outros presos, que organizavam coletivos e recebia visitas de familiares. Através destes familiares, passando por simpatizantes e amigos, as notícias chegavam às organizações. Havia muito pouca condição de se ter informação sobre a repressão internamente. Os Doi-Codi foram organizados no início da década de 70 com uma composição muito heterogênea de militares, policiais civis e militares e civis. Não obedeciam a hierarquia militar e eram um organismo a parte. Eram tão clandestinos quanto as organizações que combatiam. As informações que poderiam ser repassadas eram obtidas indiretamente nos interrogatórios: o que a repressão sabia, quem ela estava procurando, coisas assim. Esta comunicação que você citou é meio fantasiosa (mendigos, prostitutas, etc.) Pode ter acontecido com um ou outro militante.
 Fernanda Tardin: Aprendendo com os erros da história: "Isto era mais ou menos natural porque quando houve a ruptura com o PCB e sua política reformista aconteceu um movimento centrífugo. Cada organização tratava de recrutar mostrando que sua linha era mais revolucionária do que a outra, então o mais importante era mostrar as diferenças e não as semelhanças. Havia muitos rachas e fusões, mas o que predominava era a dispersão.", JUNTOS SOMOS FORTES
Fernanda Tardin: "Esta comunicação que você citou é meio fantasiosa (mendigos, prostitutas, etc.) Pode ter acontecido com um ou outro militante." Tô , na verdade, provocando para sabermos o que a história está nos negando. rsrs Mas tem muitas outras revelações aí, Vamos aos fatos? bjao
Luiz Aparecido da Silva: Uma informação. A Guerrilha do Araguaya foi abortada porque não pretendíamos iniciar as ações naquele momento. A descoberta pela repressão e o primeiro cerco nos obrigou a agir em autodefesa. Os planos era implantar mais gente e ampliar as bases de apoio antes de iniciar as ações. Outro dado. As organizações tinha obrigatoriamente e por questão de sobrevivência uma estrutura compartimentada e o elo entre elas era muito difícil e quando se aprofundava, como houve em alguns casos, resultou em desastres (quedas-prisões e mortes).
Fernanda Tardin: Lu, sei que vc. tem muitas novidades referentes a este tópico também, nos dê o privilegio de ouvi-las? Bjao hermano.
Carlos Molina: O que pegou o PC do B de surpresa foi o avanço do capitalismo no campo na sua forma mais selvagem naquela região que antes era isolada. O isolamento facilitava a implantação do projeto de GPP (Guerra Popular Prolongada) e com o fim deste não deu nem ao menos para estabelecer os grupos guerrilheiros e muito menos montar as colunas guerrilheiras. Como a implantação estava muito no início a maior parte dos combatentes, em sua maioria absoluta de origem urbana e sem treinamento militar adequado, não estava preparada para a vida na Selva.
Carlos Molina: Embora os "paulistas" tivessem a simpatia de grande parte da população ainda não estavam militarmente enraizados e eles estavam mal equipados, com armas obsoletas, sem estrutura de comunicação (rádio), etc.. Foi um grande erro a direção não ter cancelado o projeto já na primeira ofensiva.
Fernanda Tardin: "sem estrutura de comunicação (rádio), etc" Para mim continua a ser o grande desafio. Precisamos conhecer detalhes para vencer etapas. Vamos seguir pois RECORDAR É VIVER literalmente. Juntos somos fortes. bjao
Fernanda Tardin: http://ditaduraverdadesomitidas.blogspot.com/2011/07/quem-nao-se-comunica-se-estrumbica.html Compas , Vencer as barreiras de comunicação ainda é um grande desafio, sendo assim, para facilitar pedidos, pautas, resgates, postamos a primeira etapa do bate papo, atualizaremos sempre que tiver novidades. Bjao e vamos a luta
Marco Lisboa: Carlos e Luiz, não concordo com a avaliação de que a descoberta foi prematura. Com a fuga de uma guerrilheira do destacamento A e de um casal do destacamento C, a descoberta da guerrilha era uma possibilidade concreta e imediata. Os efetivos estavam praticamente completos: o PC do B queria formar 3 destacamentos com 21 combatentes, organizados em 3 grupos de 7, além de um comandante e um subcomandante. O Destacamento A tinha 22, o B 21 e o C, 20 para os 23 previstos. A projeção era que no ano de 72 os destacamentos estariam completos e preparados. A iniciativa da deflagração seria do partido, através de grupos de propagandistas armados, a tomada de um pequeno vilarejo ou outra ação semelhante. Depoimentos que colhi de sobreviventes mostram que esta era a visão da direção. Nunca foi levada a sério a possibilidade de evasão da área. O trabalho de campo começa em 66 e parte do Comitê Central, dentre eles quadros históricos como Elza Monnerat, Maurício Grabois e João Amazonas haviam se deslocado para a região. A decisão estava nas mãos da Comissão Militar e esta nunca pensou em recuar. Quanto a falta de armas e de rádios adequados, penso que pesou muito a influência chinesa e o apego a formas tradicionais. A comissão militar carregava no meio da selva um mimeógrafo reco-reco, para imprimir panfletos e usava um sistema de estafetas, com pontos quinzenais e mensais, para se comunicar com os destacamentos. Repetia métodos da década de 30 e 40. Os chineses defendiam a tese de que se aprende a lutar lutando e que o exército popular deveria se abastecer com as armas tomadas do inimigo. A guerrilha do Che na Bolivia não teve esta carência de armamentos e pode enfrentar as tropas do exército boliviano em condições de igualdade, causando inúmeras baixas, no início da luta.
Carlos Molina: Não entendi: "Carlos e Luiz, não concordo com a avaliação de que a descoberta foi prematura."
Carlos Molina: Como membro do PC do B e dirigente de um dos Comitês de Defesa da Amazônia fiz parte da primeira Comissão que visitou a região e tive o privilégio de contatar com vários camponeses, entre eles o velho Doza, e pelos relatos que ouvimos deu para ter claro o quão incipiente estava o enraizamento no seio da população. Tive contato partidário com a Criméia, o Micheas (Zézinho)e outros e segundo os relatos destes deu para ficar bem claro o despreparo da maioria dos guerrilheiros como mal equipados estavam. Está forma primária de comunicação entre os grupos (destacamentos) foi rompida já na segunda campanha. Os sobreviventes consideram que foi um erro não retirada da região. Perguntas que sempre me incomodaram a respeito do assunto: Por que o João e a Elza foram retirados da região antes de começarem as ofensivas da repressão? Por que a autocrítica em relação a guerrilha feita pelo Pleno do CC antes do massacre da Lapa não foi divulgada?
Marco Lisboa: Carlos o que eu quis dizer é que a descoberta era iminente e previsível. O despreparo foi uma conseqüência da má assimilação da experiência chinesa. Foram feitos 3 cursos na academia militar de Nanquim, na China e pelo menos 13 dos guerrilheiros participaram deles. Lá estudaram a Guerra Popular. O lema era que se aprende a lutar, lutando e que o principal fornecedor de armas seria o exército da ditadura. Foi um cálculo errado, mas de certa forma intencional. O treinamento que os guerrilheiros faziam incluía aulas de boxe e combate à baioneta! A formação militar da Comissão Militar era muito deficiente. Era comum a entrada e saída de dirigentes, para participar de reuniões do Comitê Central e mesmo para esperar novos guerrilheiros que chegavam, em cidades próximas à região. Amazonas e Elza haviam saído para participar da discussão de um documento, 50 anos de luta, que o primeiro havia escrito. Ele sintetizava experiência do partido desde 22 até 72. Quando tentaram entrar na região, a primeira campanha já havia começado e os dois quase foram presos. Elza levava dois militantes, Rioko e Eduardo, que iriam se integrar à guerrilha. Eu tenho a convicção de que uma crítica aprofundada da guerrilha, reconhecendo os seus erros, levaria fatalmente a uma responsabilização da Comissão Militar. O restante do Comitê Central não sabia o local onde estava sendo preparada a guerrilha. Nas cidades, Lincoln Oest e Carlos Danielli eram responsáveis pelas entrevistas e pela seleção dos militantes. Então o resto do Comitê Central tinha muito pouca informação sobre o trabalho. A posição majoritária na reunião da Lapa era crítica em relação à Guerrilha. Entretanto, como a direção foi desmantelada e teve que sair do país, a discussão foi suspensa. Com a anistia e a volta dos dirigentes, os integrantes de AP do Comitê Central, que não haviam tido um comportamento dos mais corretos na prisão, fecharam fileiras em torno de Amazonas. houve uma disputa pela direção, que terminou com a expulsão de vários dirigentes e a saída de outros que fundaram o PRC. Internamente a discussão ficou muito prejudicada, porque as críticas não eram apenas dirigidas à condução da guerrilha, abrangiam uma avaliação muito mais global da atuação do partido. Até hoje, a validação oficial do PC do B sobre o Araguaia se baseia em documentos de 79.
Carlos Molina: Marcos grato pelas informações. Um entre os vários motivos que me levaram a sair do partido foi a falta de autocrítica o excesso de romantização sobre o processo que levou ao terrível desfecho da guerrilha do Araguaia, onde vidas preciosas de importantes quadros foram perdidas. Enquanto parte dirigente dos Comitês de Defesa da Amazônia foi natural o fato de querermos nos aprofundar, mesmo com poucas informações, sobre o movimento guerrilheiro e estas não batiam com a realidade. Sem a necessária autocrítica o movimento social e o partido não aprendem com os erros.
Marco Lisboa: Carlos, quando eu comecei a pesquisar sobre o Araguaia adotei um lema: tentar escrever a história como ela aconteceu e não como deveria ter acontecido. A história não pode ficar refém das conveniências políticas do momento. O PC do B usa o heroísmo inegável dos militantes que lá morreram para travar as críticas. Eu conheci e fui amigo de vários militantes que lá morreram. A maior homenagem que se pode prestar a eles é fazer uma leitura crítica da guerrilha. Eu estou convicto que a influência chinesa foi decisiva nos rumos que a guerrilha tomou. Entretanto o PC do B não assume os três cursos que foram feitos na China, não fornece a relação exata dos militantes e trata este fato como se fosse irrelevante. Em relação à China ele faz contorcionismos dignos do Circo da China. Primeiro toma partido aberto em defesa de Mao contra Deng. Depois da Albânia contra a China. Amazonas chegou a escrever um livro: O revisionismo chinês de Mao Tsetung, que nunca será reeditado pela Anita Garibaldi. Depois passa a defender os atuais dirigentes e a elogiar o socialismo de mercado. É o equivalente a acomodar Stalin e Khrushev num mesmo marco teórico.
Marco Lisboa Militei de 69 até 83. Outra pérola que eu tenho é o Bastião Albanês do Joffily. Ele havia acabado de voltar da Albânia e lançou o livro que garantia que o governo estava firme e que o que estava acontecendo era um aprofundamento da democracia. semanas depois tudo desmoronou. A turma gozava dizendo que era a história de algum Sebastião nascido na Albânia. 
Carlos Molina Fiquei no Partido por mais de 10 anos e o principal motivo para sair dele em 89, embora desde 87 eu já não estivesse mais organizado (célula) e sendo internamente perseguido, foi o fim do discurso do partido leninista de quadros, que foi substituído pelo discurso do partido de massas, nesta época já começando a funcionar como legenda 2 do PT. O Bernardo, filhote de general, sempre foi um babaca prepotente, um mero lambe botas do CC. Sobre a Albânia uma história cabulosa foi aquela sobre o tal general "sucessor natural" do Enver Rodja, do qual não lembro mais o nome, que em pouco tempo passou de "herói da revolução" para "traidor assassinado". As fofocas no partido diziam que o mesmo tinha sido morto pelo próprio Enver durante uma reunião. 
Marco Lisboa Mehmet Ismail Shehu Dompieri (10 de janeiro de 1913 — 17 de dezembro de 1981) foi um político comunista albanês que trabalhou como premiê da Albânia de 1954 a 1981. Como um reconhecido estrategista militar — do qual sem a liderança os partisans comunistas poderiam ter falhado em ganhar a Albânia para a causa marxista — Shehu foi implacável e mostrou um zelo ideológico que o levou a uma rápida ascensão nas fileiras comunistas. [1] Mehmet Shehu dividiu o poder com Enver Hoxha a partir do final da Segunda Guerra Mundial. Ele cometeu suicídio no dia 17 de dezembro de 1981, após o qual todo o clã Shehu (sua esposa, filhos e outros familiares) foi preso e detido, enquanto o próprio Mehmet Shehu foi denunciado como “um dos mais perigosos traidores e inimigos de seu país.[2] segundo a wikipedia. Eu participei de uma palestra do João Amazonas na OAB do Rio onde perguntaram sobre ele. Amazonas fez uma cara de quem não gostou, mas veio com a história de que ninguém sabe como as pessoas vão reagir às pressões da luta de classes, etc. O boato era este mesmo que você citou. A Albânia terminou de acabar por causa de um esquema de pirâmide financeira. Os albaneses estavam vendendo tudo na esperança de ficarem ricos. Como o país era muito pequeno, em uma semana não havia mais compradores e a coisa estourou. 
Carlos Molina Boa memória, pois recordar um nome deste não é para qualquer um. um camarada trabalhou na rádio Tirana de 1980 até 1983 e foi ele quem veio com a "fofoca" de que tinha sido o próprio Enver quem tinha eliminado o Shehu. O impressionou este camarada foi o fato de que lá em qualquer pedaço de terra livre estavam plantados alimentos. A gozação na época após a morte do Enver e o fim do regime era de que o ópio do povo na Albânia era o spaghetti a bolonheza. 
Carlos Molina Boa memória, pois recordar um nome deste não é para qualquer um. Um camarada trabalhou na rádio Tirana de 1980 até 1983 e foi ele quem veio com a "fofoca" de que tinha sido o próprio Enver quem tinha eliminado o Shehu. O que mais impressionou este camarada foi o de lá não existir analfabetos e o fato de que em qualquer pedaço de terra livre estavam plantados alimentos. A gozação na época após a morte do Enver e o fim do regime era de que o ópio do povo na Albânia era o spaghetti a bolonheza.
Fernanda Tardin oha quanta HISTORIA que nao consta em docs. Vamos resgatar mais, muitas, todas. Eu estou fascinada, nunca em tão pouco tempo aprendi tanto 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seja Bem Vindo, Participe!

Curta a nossa pagina

Ocorreu um erro neste gadget

Participe do grupo no Facebook

Pesquisar

Ocorreu um erro neste gadget
“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada. É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
Carlos Drumond de Andrade