quinta-feira, 27 de outubro de 2011

No dia 1º de abril, e não 31 de março de 1964 houve no Brasil um Golpe de Estado. Não só militar mas também civil.

Por Ana Helena Tavares(*)

Estudantes encurralados em um prédio, envoltos por fumaça e com fuzis militares apontados para suas cabeças. Foi esta a cena que Ivan Cavalcanti Proença, então Capitão do Regimento Presidencial de João Goulart, encontrou no Largo do Caco, na manhã do dia 1º de Abril de 1964.
Naquele dia – e não no dia 31 – houve, no Brasil, um golpe de Estado. Não só militar, mas também civil, visto que apoiado pela classe média urbana – definida por Proença como “classe me engana que eu gosto, que não vai para o paraíso” – e patrocinado por empresas privadas (muitas estrangeiras), como ele garante. “Não foi um golpe do povo”, frisa ele. O “crime” daqueles estudantes foi serem contra este golpe, o “crime” de Proença foi defender as cabeças deles.
Deparando-se com a cena, Proença mobilizou a tropa que estava sob seu comando para evacuar o prédio, conseguindo salvar até o último estudante. Cecília Coimbra, atual presidente do “Tortura Nunca Mais – RJ”, e outros membros do Grupo, foram alguns dos jovens salvos por ele naquele dia.
Proença, que é autor do livro “O Golpe Militar e Civil de 64” (Oficina do Livro, 2004), concedeu entrevista exclusiva ao “Quem tem medo da democracia?”, onde relembra esta história, comentando ainda: Lei de Anistia, Comissão da Verdade e o que há de democracia no Brasil atual.
Para ele, nosso Exército tem uma história patriótica, que foi manchada de sangue em 64. Lamenta não ter conseguido capturar os militares golpistas que encontrou. Ao contrário disto, ao voltar ao quartel, imediatamente difamado por um colega de farda, ele é que foi preso. “Se eu soubesse, não teria voltado”.
Depois de passar cerca de 50 dias na prisão, lhe foi dada uma chance de perdão, mas queriam em troca seu silêncio diante das atrocidades que viu. Não aceitando, teve seus direitos militares cassados e passou mais de 20 anos sendo perseguido na vida civil.
Sobre uma ditadura anistiar a si própria, garante: “Isso não existe no mundo jurídico em lugar nenhum”. E completa: “Na verdade, foi tudo para beneficiar os torturadores e assassinos”. Descreve a Lei de Anistia como “ilegal e ilegítima”, além de bem restrita para ele: foi promovido, por ser oficial, havendo porém “restrições de cursos e tempo de serviço”. E destaca que, além de tudo, foi uma anistia “elitista”, já que não anistiou “as praças” (soldados, cabos, sargentos e sub-tenentes). Fato que ele define como “vingativo e odiento”.
Sobre a “Comissão da Verdade”, levando em conta a falta de punição aos torturadores, aos quais ele chama de “escória”, pergunta: “Verdade para quem? Por que ser fiel àquela Lei de Anistia? Abre precedente na história do Brasil… Os caras deitaram e rolaram e nada acontece?”
Proença sugere que os nomes escalados para a Comissão deveriam ser “repensados” e alerta que há muitos “militares de pijama, velhos reacionários”, que “pregam a não aceitação da Comissão, acusam e agridem verbalmente desde a presidente da República a toda a classe política que luta por uma verdadeira reparação dos crimes da ditadura, e ameaçam com novos golpes”. Segundo ele, estes militares “insuflam tropas, porque ainda têm poder de influência no Exército”. E “ainda fazem festas pra homenagear os torturadores”. Para ele, é preciso “intervir na educação do militar”. Assegura que lhes falta uma “cultura ampla, geral e irrestrita”.
Comenta que, “em nome de uma suposta atitude democrática”, há militares querendo intervir na Comissão. Comissão esta que vê com pouco otimismo: “É remota a idéia de se fazer justiça. Ainda mais se não houver a abertura dos arquivos”.
Diz que “a sociedade tem que saber o que aconteceu” e rechaça a expressão “revanchismo”: “Isso seria se torturássemos os torturadores”, afirma citando o Dr. Hermann Baeta, famoso advogado.
Cúpula militar, imperialismo americano, poder econômico – banqueiros, latifundiários, empresários – e midiático, em especial Rede Globo, são, para ele, os maiores responsáveis pela manipulação da informação e incitação de golpes. “Foram todos cúmplices em 64”, garante.
Vindo para 2011, Proença disse ter ficado “satisfeito” com a eleição de Cristina Kirchner, na Argentina. Sobre a atuação de Dilma, considera que vai “muito bem” e que lhe parece “mais firme do que Lula, com mais atitude”. Comentou sobre o caso do ministro dos esportes, Orlando Silva, “denunciado por um bandido”.
Afirmou que Dilma “teve razão” quando disse que “não se deve comemorar a morte de nenhum líder”, referindo-se a Kadafi, que Proença acredita ter sido executado. “Ele (Kadafi) foi um covarde, ditador, que fez horrores, mas fizeram com ele também uma barbaridade. Quer dizer, é olho por olho, dente por dente?”, pergunta-se Proença. “Até os nazistas foram julgados!”, completa.
Embora otimista quanto ao atual governo, Proença considera que o Brasil está “muito longe” da democracia com que sonhavam os estudantes que ele salvou e também de ter uma “identidade cultural”. Lamenta o fato de que Collor, Maluf e Sarney ainda “estão aí”, e concorda com quem diz que a juventude “alienada” de hoje é “conseqüência dos 20 anos” (64/84). Mas pondera que não adianta mais colocar a culpa na ditadura.
“Já passaram mais de 20 anos e não houve grandes transformações. A educação continua um horror! Há uma ânsia indevida de se cursar faculdade! Esse contexto está todo errado! O mercado passa a ser gente. E gente passa a ser objeto. Há uma relação muito estranha entre o saber, a cultura, a educação propriamente dita, e o mercado dominante”, lamenta Proença, apontando, como saída, que a “juventude tenha mais reflexão, livre-arbítrio”. E conclui: “A gente não conta com os meios de comunicação. Longe disso. Mas é preciso que aqueles que crêem num Brasil mais democrático façam um trabalho junto à juventude. Alguma coisa tem que ser feita para criar consciências críticas na sociedade! É preciso criar meios de enfrentamento: uma entrevista como esta, palestras, a atuação de um professor”.

*Ana Helena Tavares é editora do site “Quem tem medo da democracia”.


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Carlos Drumond de Andrade