sábado, 12 de novembro de 2011

DITADURA - Infância e Juventude

Por Paulo Fonteles
 Infância e Juventude
 
Por isso tudo, não é uma surpresa que as poesias de Paulo Fonteles fossem publicadas primeiro na Alemanha e não no Brasil. Já nos tempos da ditadura, muitos poetas eram mais lidos no exterior do que no próprio Brasil. Entre eles, muitos dissidentes como Pedro Tierra, Moacyr Félix, Pedro Casaldáliga, Ferreira Gullar, Alex Polari, Thiago de Mello entre outros. Muitos deles tratavam de repressão e tortura. Mas nenhum deles fala da tortura de maneira tão imediata na sua poesia como Paulo César Fonteles de Lima, que em 1969, ainda um jovem de 20 anos de idade, quis incitar uma rebelião popular contra a ditadura dos militares.
Paulo César Fonteles de Lima nasceu em Belém no dia 11 de fevereiro de 1949. Ele era o oitavo filho de Benedito Oswaldo Rodrigues de Lima e Carolina Fonteles de Lima. Anos antes, os pais tinham fugido para Manaus tentando escapar da perseguição pelo regime autoritário do general Magalhães Barata. Benedito tinha sido preso colando cartazes subversivos nas paredes. Pouco antes do nascimento de Paulo Fonteles a sua família retornou a Belém. Naquela época, o presidente era o populista Getúlio Vargas na antiga capital do Brasil, o Rio de Janeiro. Assim como o ditador português Salazar, Getúlio Vargas chamava seu modelo de desenvolvimento de "Estado Novo". Com Getúlio Vargas no poder, o Brasil passou pela Segunda Guerra Mundial. Tendências fascistas e um autoritarismo generalizado eram a marca registrada do presidente. Por outro lado, Getúlio também criou o salário mínimo, a jornada de trabalho de 48 horas, as férias remuneradas e leis trabalhistas modernas, semelhantes à política do presidente argentino Juan Domingo Perón, no mesmo período. Quando a guerra terminou, os militares deram o golpe e instalaram um novo governo. Mas em 1950 o populista Getúlio Vargas foi eleito mais uma vez.
Pouco depois, em 1952, os poetas Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos publicaram em São Paulo a revista Noigandres, onde apareciam pela primeira vez poesias concretas, o primeiro artigo de exportação genuinamente brasileiro, como disse uma vez Oswald de Andrade. Durante esse período, Getúlio fundou estatais como a Petrobrás e a Eletrobrás, que até hoje, são de grande importância econômica para o Brasil.
Em 1954, havia a ameaça de um novo golpe, mas o presidente adiantou-se a ele cometendo suicídio. No período seguinte, o presidente Juscelino Kubitschek (1956 até 1961) teve grande influência sobre a evolução do país. Jucelino ganhou as eleições com a promessa de avançar "cinqüenta anos em cinco". Ele se afastou do capitalismo estatal de Getúlio dando lugar ao investimento estrangeiro. Ao mesmo tempo, ele isolou o país através de taxas de importação altas. Queria, com isso, provocar uma revolução industrial. Jucelino construiu Brasília com a participação decisiva do arquiteto Oskar Niemeyer, com a intenção de integrar o planalto central do Brasil. Como símbolo do progresso, a cidade recebeu a forma de um avião.
Durante este período do "Desenvolvimentismo", Paulo Fonteles freqüentava a escola primária, onde inicialmente não se mostrou bom aluno. Após conhecer Conceição, que viria a ser seu primeiro grande amor, ele começou a melhorar. Conceição, que estava presa a uma cadeira de rodas por causa de uma Paralisia Infantil, incentivou Paulo Fonteles a ler. Em 1964, o ano do golpe, ele tinha 15 anos, conhecia os Iluministas franceses e os clássicos brasileiros e ia freqüentemente a igreja, provavelmente por influência da sua namorada. Foi lá que ele participou das primieras discussões políticas. Muito rápido Paulo mostrou ter o dom da retórica e uma memória privilegiada. Decidiu, em 1967, estudar política.
Depois de passar no vestibular e de começar os estudos, demorou um pouco para ingressar ativamente na política. Desde que, em novembro de 1964, o direito de reunião dos estudantes foi praticamente revogado com a lei "Suplicy" (segundo o então ministro da educação, Flávio Suplicy de Lacerda), uma agitação crescente regia nas universidades brasileiras. Estudantes e professores tomavam parte em reuniões clandestinas nas acomodações universitárias, panfletos eram imprimidos e distribuídos. Naquele período, a União Nacional de Estudantes (UNE) ganhou bastante importância. Desde 1965, quando ocorreu o último congresso legal, ela se reuniu várias vezes ilegalmente até o ano de 1979, quando o AI-5 foi revogado, no transcurso da lenta redemocratização do país. A UNE se tornou o palco dos debates dos grupos de esquerda para definir a melhor forma de enfrentar a ditadura. A Ação Popular (AP), de influência católica, defendia uma subversão de massas, já que, segundo ela, apenas o povo teria condições de derrubar a ditadura. O partido concorrente era o Partido Comunista Brasileiro (PCB) que ainda não tinha compreendido totalmente a situação e apostava num apoio institucional conjunto do governo. Paulo Fonteles aproximou-se nesse período cada vez mais da AP. E novamente foi uma mulher que o introduziu no novo meio. Hecilda Veiga, seu segundo grande amor, era dois anos mais velha e membro ativo da AP.
Em 1968, Paulo fez uma viagem com seus melhores amigos pela Amazônia. A grande pobreza dos "ribeirinhos" foi um choque para ele. Ao mesmo tempo, o seu interesse político se voltava à revolta estudantil de maio em Paris. Sob influência dos acontecimentos na França, naquele ano, os brasileiros também foram às ruas.
No dia 26 de junho aconteceu a "Passeata dos Cem-Mil" no Rio de Janeiro. Duas semanas depois, no dia 5 de julho, o Ministro da Justiça, Luiz Antônio da Gama e Silva, proibiu todas as manifestações públicas. Em Belém, os estundantes ocuparam várias Faculdades, enquanto Caetano Veloso e Gilberto Gil davam concertos de solidariedade na cidade. Ambos os músicos faziam parte do movimento ainda novo conhecido como "Tropicália", que combinava a Bossa Nova, o Pop e o Rock com a Poesia Concreta, o Black Power e a moda Hippie. Somente pela sua aparência não-convencional os dois já eram uma ofensa ao regime militar.
No dia 12 de outubro de 1968, quatro dias após o assassinato de Che Guevara na Bolívia, a UNE organizou um congresso secreto em Ibiúna no sul do estado de São Paulo. Não fosse pela intervenção de sua família, que era contrária às atividades políticas de seu filho, Paulo Fonteles teria ido também. Essa foi a sua sorte, pois Ibiuna tornou-se uma catástrofe para o movimento estudantil brasileiro. A polícia apareceu de surpresa e prendeu quase 700 pessoas, entre elas toda a direção, da qual José Dirceu também fazia parte, que, mais tarde, se tornaria presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) e Chefe do Gabinete do Governo de Luís Inácio Lula da Silva de 2003 a 2005. Um ano mais tarde, no dia seis de setembro, José Dirceu foi solto e mandado de avião ao México juntamente com outros 14 presos políticos em troca da liberdade do embaixador norte-americano Charles Elbrick. Os seqüestradores de Elbrick faziam parte de uma organização estudantil de esquerda que se denominava "Dissidência Universitária da Guanabara". Ela era, até o momento, completamente desconhecida das autoridades de segurança. Entretanto, a "Dissidência" tinha contatos com a famosa "Ação Libertadora Nacional" (ALN) em torno de Carlos Marighella, que na época era o "Terrorista" mais procurado. A ALN concordou em organizar toda a logística do seqüestro.
No início de 1969, pouco depois da edição do AI-5, houve uma mudança política dentro da AP. Elio Gaspari fala de uma "Maoização" . De qualquer forma, a organização foi perdendo aos poucos as raízes católicas. Foi nesse período que Paulo Fonteles começou a tomar parte nas atividades políticas ilegais da organização, recebendo o codinome de "Carlinhos". Ao mesmo tempo em que a ditadura se tornava cada vez mais radical, a AP começava uma estratégia de revolta popular mandando seus membros a diferentes regiões do interior brasileiro, onde estes, com o pretexto de exercer atividades legais, distribuiriam panfletos e se dedicariam à agitação em geral. Assim como outros grupos da resistência, os estrategistas da AP acreditavam poder atingir facilmente a população do interior porque lá a influência dos militares seria menor. Por isso seus membros foram enviados às mais diferentes regiões. Paulo e Hecilga trabalharam por um período como contatos para essas pessoas. Foi dessa forma que ele conheceu o Araguaia no sul do Pará, região pela qual muitos anos depois voltaria a se interessar.
No dia 19 de junho de 1970 Paulo Fonteles se casou com Hecilga Veiga. Logo depois houve uma reunião secreta da AP, onde ficou decidido que Belém não era uma "área estratégica" para a AP. Com isso ficou claro que Paulo e sua esposa seriam obrigados a deixar Belém mais cedo ou mais tarde, se quisessem continuar fazendo parte da resistência. Mudaram-se para Brasília.
Paulo recebeu o novo codinome "Peixoto" e Hecilda tornou-se "Maria". Às suas famílias, que acompanhavam, desconfiadas, o caminho político do casal, eles disseram que a mudança para Brasília era essencial, pois algumas cadeiras que queriam cursar não eram oferecidas em Belém. Argumentaram também que como casal jovem necessitariam de mais liberdade. Em Brasília, viviam em condições precárias. Depois de mudar-se várias vezes, moraram em um pequeno apartamento no centro olímpico. Paulo Fonteles, alias "Peixoto", era o líder da AP local de Brasília. O grupo se reunia uma vez por semana em diferentes apartamentos considerados seguros, os chamados "aparelhos", para tomar decisões. Eles também se encontravam regularmente no apartamento de Paulo e Hecilda. Como líder, Paulo também participava de ações nas universidades e nas perigosas ações de rua. Delas fazia parte a distribuição de panfletos do jornal Libertação, que era imprimido em um mimeógrafo escondido em uma casa no interior. Além do mais, o grupo colava cartazes nos muros ou pixava-os. Todo o material subversivo era guardado em casa. Seus slogans como "Abaixo a ditadura. Sete - 07 - anos de repressão" deveriam levar a população à rebelião.
A AP começou a sofrer pressão interna quando a maioria dos membros resolveu em 1971 mudar o nome para "Ação Popular Marxista-Leninista - APML). Apesar dessa radicalização, a organização, e com ela Paulo e Hecilda, continuavam defendendo a agitação sem violência, ao contrário do que faziam outros grupos e, principalmente, o Partido Comunista do Brasil (PC do B), que vinha preparando, desde 1966, a guerrilha armada na região do Araguaia, no sul do Pará.
Em agosto de 1970, Hecilda engravidou. A partir desse momento, a segurança do casal tornou-se prioridade. Tornou-se um problema que na casa onde moravam, havia muitos documentos que, se caíssem nas mãos da polícia, poderiam causar grandes estragos. Por causa da reforma estrutural necessária quando da mudança do nome da organizaçao, todos os membros da APML foram obrigados a escrever um relatório sobre sua tranformação pessoal e política. Isso siginificava muita burocracia em condições precárias produzindo possíveis provas para a polícia.
As organizações clandestinas brasileiras agiam de modo extremamente amador. Até um temido "Terrorista" como Carlos Marighella, autor do famoso "Manual do Guerreiro Urbano", que foi lido também pelo grupo terrorista alemão Baader-Meinhof, cometia erros primários como o uso freqüente dos mesmos sinais de reconhecimento, além de freqüentar o mesmo local com freqüência, o que em 4 de novembro de 1969 custou-lhe a vida. Mariguella foi executado pela polícia militar no meio da rua. Era provavelmente o mesmo tipo de detalhe que levou a polícia aos rastros de Paulo Fonteles e sua esposa Hecilda. Eles foram presos no dia 6 de outubro de 1971.

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“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada. É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
Carlos Drumond de Andrade