quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O Estado do Pará apto ao Programa Federal Memórias Reveladas

A memória é um bem público que está na base do processo de construção da identidade social, política e cultural de um país. Isto significa que a memória é fundamental para a construção da verdade sobre os acontecimentos históricos.

O trabalho em busca dos mortos e desaparecidos no Araguaia, possibilitou ao Estado do Pará ingressar ao Programa do Governo Federal Memórias Reveladas.
 
O Liberal

21/06/2010

Caixa preta da tortura vai ser aberta

REVELAÇÕES Pará vai receber 41 documentos relacionados à ditadura militar.

Depois de mais de trinta anos de espera, hoje o Pará vai receber os primeiros 41 documentos produzidos sobre pessoas e instituições vigiadas, torturadas, mortas e desaparecidas durante o período da ditadura militar o Brasil. Os documentos são fichas de investigação, relatórios e outros registros, desde o final da década de 60 até 1987, que estavam sob a guarda do Serviço de Inteligência da Aeronáutica (Cisa). No final deste mês, geólogos, antropólogos forenses, odontólogos, arqueólogos e médicos legistas, acompanhados por equipes da Polícia Federal e do Exército, recomeçam em Xambioá (MT), São Geraldo do Araguaia, Palestina e Brejo Grande do Araguaia, no Pará, escavações em busca de ossadas de desaparecidos da Guerrilha do Araguaia. Os documentos que serão entregues hoje à noite ao Estado relatam toda a vigilância das Forças Armadas rasileiras, incluindo as polícias militar e federal, e descrevem desde a vida pessoal até eventos, movimentos da igreja católica, a teoria da libertação, as guerrilhas do Araguaia e ações urbanas, atos de quem queria ver o país livre da opressão.
Quem vai entregar os documentos é Paulo Fontelles Filho, um dos quatro ouvidores do Grupo de Trabalho do Tocantins, representante do Estado junto ao Ministério da Defesa, no Programa Federal Comissão da Verdade. Todo o material será repassado oficialmente às 18h30, em cerimônia no Teatro da Estação Gasômetro, do Parque da Residência. Mas Fontelles ressalta que os arquivos entregues pela Aeronáutica à Comissão Nacional da Verdade não devem estar completos, porque a numeração das pastas não obedece à ordem de numeração crescente e pula vários números, deixando um vazio em muitos intervalos das pastas. É possível que muita coisa tenha sido destruída ou ainda esteja escondida. "Eu tenho a impressão que muita coisa foi retirada na hora do repasse e está tudo em formato PDF, mesmo assim são documentos importantes sobre o Pará que precisam ser conhecidos pela população", disse o ouvidor, filho de um dos investigados pela ditadura militar, o advogado Paulo Fontelles, que foi brutalmente assassinado, em crime misterioso, por pistoleiros, durante luta pela terra para camponeses.
DETALHES
Entre os documentos estão relatórios sobre a resistência dos guerrilheiros do Araguaia, as atividades do clero, que incluem desde freiras, o padre Ricardo Rezende, Dom Pedro Casaldáglia, até Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom Paulo Evaristo Arns, chamados de "esquerda clerical". Os papéis incluem ainda a possível entrada de terroristas estrangeiros, a atuação do PC do B, com destaque para o advogado Paulo Fontelles, Roberto Martins, Marcos Panzera, pai do ex Secretário de Estado de Esportes, Jorge Panzera, Hecília Veiga, Ademir Andrade e Padre Ricardo Rezende. Mas não há nenhum documento que trate sobre prisão, tortura ou morte durante a guerrilha. E também nenhum documento com nomes, assinaturas ou identificação que mostre como atuavam os agentes da repressão contra os direitos humanos.
O documento mais contundente é contra o engenheiro eletricista Lúcio Petit da Silva e Jaime Petit da Silva. No informe 050, de 14 de abril de 1969, com origem no AD 4 / II EX, do Ministério da Aeronáutica, toda a família Petit é citada como "subversiva e perigosa", sendo Germano Petit considerado "hábil e inteligente" e, devido à formação em eletricidade e ao fanatismo, capaz de atividades terroristas. Os dados informam que ele deveria ter sido neutralizado ainda em São Paulo, como "medida necessária". Mas os Petit desapareceram durante a Guerrilha do Araguaia, assim como outros 79 brasileiros, dos 150 que continuam desaparecidos pelas mãos e pela força da ditadura militar.
Até hoje, apenas dois participantes do movimento foram identificados, Maria Lúcia Petit e Bergson Gurjão, e existem sete ossadas no Centro de Perícias Científicas de Brasília. "Foi feita uma operação limpeza na região do Araguaia nos anos 70, 80, 90 e, possivelmente, 2000. Por isso, as dificuldades em encontrar os desaparecidos", denuncia Paulo Fontelles Filho. Em 1996, foram localizadas ossadas totalmente sem condições de identificação, por causa do uso de cal ao serem enterradas, na reserva Sororó, dos índios Suruí, em São Geraldo do Araguaia. Por se tratar do arquivo mais terrível sobre a vida política no Pará, a documentação pode ajudar a criar uma Comissão Estadual da Verdade, que poderá habilitar a região a entrar no programa "Memórias Reveladas", que investiga a ditadura e tem financiamento do BNDES e da Petrobrás.
 
 

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“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada. É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
Carlos Drumond de Andrade