sexta-feira, 11 de novembro de 2011

DITADURA HOJE - A cara do Brasil

Via terramagazine Por: Francisco Viana e Katia Guzzo

Estudantes da USP e policiais militares durante confronto na semana passada
(Foto: Tiago Queiroz/Agência Estado)
             

A ocupação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, que ganha manchetes dos jornais, lembra mais do que os tempos da ditadura militar, com as tropas de choque sitiando e agredindo estudantes. É demonstração prática da escalada conservadora no Brasil. De um lado e de outro, uma expressão libertária da juventude que traz em si o espírito renovador de diferentes épocas. Foi o que aconteceu em 68 com a rebeldia contra os militares, é o que acontece hoje com a rebeldia contra uma sociedade ainda atávica que teima em adiar seu encontro com a liberdade real, preferindo cultivar, ainda, a liberdade feita apenas pelas palavras.

Quem são os conservadores que estão despindo as máscaras, como é comum no clímax das antigas e recorrentes tragédias gregas? A Polícia Militar, que se revela despreparada para cumprir suas funções no regime democrático? O reitor João Grandino Rodas, que liberou o campus para a ação policial? O Governador Geraldo Alkmin que se curva à ação policial e ao autoritarismo do reitor? Na realidade, o conservadorismo é generalizado. O que muda é a hierarquia. Em pleno século XXI, policiais ocupando um campus universitário, prendendo estudantes por porte de maconha - isto é, não separando o usuário do traficante - e entrando em confrontos com jovens estudantes ,é sob qualquer ângulo que se avalie, um anacronismo.
Anacronismo? Sim. É a palavra que melhor traduz algo que se encontra radicalmente fora de época. Tem que ser revisto. Isto para não dizer, também, que se trata de uma violência. Inadmissível como toda violência.
A Polícia Militar, de todos os responsáveis, é a que menos responsabilidade tem pelo episódio. Cumpre ordens. Erra, por não tomar a iniciativa de se educar para a democracia e ter cuidado com a própria imagem. Erra, por reprimir jovens estudantes em lugar de procurar proteger o cidadão e zelar pela sua segurança. Erra ,por não verificar que usuário não é criminoso. Mas, na essência, os dois grandes responsáveis são o Governador e o Reitor. O Reitor, porque se revela um conservador que vem transformando a USP, antes uma Universidade viva e libertária, num centro sem expressão. No currículo de Rodas, existe o emblemático título, nunca antes outorgado a um Reitor, de "persona non grata",concedido pela Congregação da Tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que foi por ele dirigida. Aliás, todas as vezes que o Reitor Rodas se defronta com manifestações de natureza democrática real, costuma chamar a polícia. Foi o recurso usado contra os estudantes da UNE e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Para ele, a autonomia universitária é, de fato, caso de polícia.
O Governador Alkmin dispensa apresentações. É um desses ,que se fazem passar por liberal, mas no momento em que as crises surgem não hesita em recorrer à força. Ou, em outras palavras, busca justificá-la como meio para garantir a ordem pública. Foi o que fez nesse episódio de ocupação da USP.
Voltando ao ponto inicial, a ocupação da USP. Certamente, é uma acontecimento velho, de roupa nova ,que vem mostrar como ainda precisamos espanar as teias do atraso.
Em linhas gerais, a ocupação da USP ocorre num momento em que os movimentos reivindicatórios se alastram pelos Estados Unidos, Europa e em especial no Mundo Árabe. Há crescente insatisfação no mundo contra uma ética em que se anuncia uma coisa e se faz outra, contra governantes que escondem suas verdadeiras faces sob o véu de discursos dignificantes e tomam atitudes contrárias ao que afirmam.
Esta é a origem da corrupção. Na raiz latina, a palavra corrupção significa desvio de finalidades ou não cumprimento daquilo que é prometido.
O movimento da USP ganha dimensões bem maiores do que um movimento estudantil. Tende a transbordar para múltiplos campos sociais, tende a ganhar significação política. Certamente, o Reitor João Grandino Rodas não deverá resistir muito tempo no cargo. E se resistir será crescentemente criticado pelos seus pares. O primeiro passo seria a saída da Polícia Militar do campus. Os policiais, com o episódio, nada dignificante, perdem a autoridade. O Reitor sabe que polícia e Universidade não podem conviver. A memória de governantes que reprimem estudantes, como aqueles que reprimem trabalhadores, permanecerá para sempre manchada. A notícia da rebelião na USP já se encontra nas redes sociais e corre o mundo em tempo real.
Ao Reitor Rodas, que não disputa cargos eleitorais, certamente tal episódio parece não ter importância. Segundo ele, a presença de policiais no campus é correta e assim vai permanecer. Pode-se dizer o mesmo do Governador Alkmin? Ele declara que sim aos jornais. Reafirma a visão do Reitor. Na prática, a resposta , baseada na razão dos fatos, deveria ser não. Como ele disputa cargos eleitorais, deveria saber: os resultados negativos virão com o tempo. É preciso, evidentemente, se preocupar com o presente. Mas jamais ,o governante poderá perder a perspectiva de futuro. Sobretudo se for um estadista, o que deveria ser necessariamente parte do perfil de um governante do maior estado do País.
Nada poderá interromper a marcha do cidadão brasileiro para conquistar a liberdade - o direito de mobilização. Mas o que é a liberdade? Estamos cansados de falar em liberdade de expressão, mas no quê ela deveria implicar? Atitude, ação, resposta.
Apesar das greves e passeatas, de movimentos contra corrupção e de gestos de protestos, ainda estamos distantes de transformar a indignação em atitudes políticas de massa. O futuro imediato vai colher o que vem sendo agora semeado na USP e nas diferentes manifestações de brasileiros indignados.

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“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada. É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
Carlos Drumond de Andrade